A pessoa começa o tratamento, percebe menos fome e vê o peso diminuir. Mas surge outra mudança: falta disposição para trabalhar, o treino fica mais difícil e o dia depois da aplicação parece particularmente ruim.
Essa é uma situação possível, não um relato de um paciente específico. E minha primeira reação não seria dizer “é assim mesmo”. Seria entender o que exatamente a palavra cansaço está descrevendo.
É sono? Fraqueza? Tontura ao levantar? Falta de ar? Dificuldade para comer? Cada resposta muda a conversa. Colocar tudo na conta da caneta pode ser tão equivocado quanto ignorar a relação temporal com ela.
A fadiga pode aparecer, mas não explica tudo
A fadiga consta entre as reações adversas descritas na bula norte-americana de uma das medicações injetáveis usadas para controle do peso. Isso torna a relação possível, mas não demonstra que toda indisposição durante o uso seja causada diretamente pelo medicamento.1
Eu gostaria de reconstruir a sequência: quando começou, quanto dura, se aparece após cada aplicação, se houve aumento de dose e se existem sintomas associados. Também perguntaria sobre mudanças em outros remédios, rotina e alimentação.
Não é burocracia. É a diferença entre identificar um padrão e escolher uma explicação só porque ela parece conveniente.
Menos fome não significa que comer deixou de ser importante
A redução do apetite pode tornar mais difícil manter uma alimentação suficiente e variada. A orientação conjunta de sociedades sobre nutrição durante o uso das canetas para o tratamento da obesidade recomenda avaliar a ingestão, os sintomas gastrointestinais e o risco de inadequações, em vez de concentrar toda a atenção no peso.2
Eu pediria um retrato honesto de alguns dias: o que conseguiu comer, o que não tolerou e quais refeições foram deixadas de lado. Não para procurar culpa, mas para localizar obstáculos.
Imagine tentar sustentar trabalho e treino com uma rotina alimentar que a própria pessoa descreve como “quase não estou comendo”. Isso merece uma conversa sobre adequação, e não um elogio automático à falta de apetite.
O objetivo não é forçar grandes refeições nem adotar uma regra universal. É construir com a equipe uma estratégia tolerável e suficiente para aquela fase.
Água, pressão e outros medicamentos entram na investigação
Vômitos e diarreia podem contribuir para desidratação. Sede, boca seca, urina mais escura, redução do volume urinário e tontura são sinais que podem acompanhar a perda de líquidos. Nem sempre todos aparecem juntos.3
Outro cuidado é não chamar toda fraqueza de hipoglicemia. Glicose baixa pode causar tremor, suor, palpitação e confusão, entre outros sintomas, especialmente em contextos como uso de insulina ou de certos medicamentos para diabetes. A história e, quando indicado, a medida da glicose ajudam a esclarecer.4
A bula norte-americana dessa mesma medicação destaca o risco de hipoglicemia quando associada a insulina ou a certos medicamentos para diabetes. Eu revisaria o conjunto dos medicamentos, sem orientar o paciente a retirar ou modificar doses por conta própria.1
Também não tentaria resolver tontura apenas acrescentando café ou pré-treino. Primeiro precisamos entender o que está acontecendo.
E se a caneta não for a principal causa?
Cansaço pode se relacionar a sono insuficiente, distúrbios do sono, anemia, alterações da tireoide, infecções, saúde mental e outros problemas. A avaliação deve ser orientada pela história e pelos sinais, não por um painel igual de vitaminas para qualquer pessoa.5
Por isso, eu teria cautela com a solução instantânea “vamos fazer uma vitamina na veia”. Antes de escolher uma reposição, quero saber se existe uma deficiência, se ela explica o quadro e qual abordagem realmente faz sentido.
O mesmo vale para presumir testosterona baixa, mesmo quando essa explicação parece combinar com o discurso de energia e performance.
Quando não esperar a próxima consulta
Dor abdominal forte e persistente, vômitos que impedem a hidratação ou uma reação alérgica importante exigem avaliação imediata. A mesma bula norte-americana inclui alertas para pancreatite e reações de hipersensibilidade; esses sintomas não devem ser tratados apenas como adaptação.1
Confusão, desmaio, falta de ar importante ou sinais de desidratação intensa também não são situações para tentar resolver por mensagem ou aguardar o retorno de rotina.34
Fora das urgências, vale entrar em contato com o profissional responsável antes de avançar no tratamento quando os sintomas estão atrapalhando alimentação e funcionamento. Levar um registro breve costuma tornar a conversa mais objetiva.
Emagrecer não deveria exigir que você aceite funcionar pior sem investigação. A proposta de acompanhamento da Aplic&Go começa por ouvir esse tipo de sinal e colocá-lo ao lado da evolução do peso. A consulta serve para decidir o próximo passo com contexto, não para normalizar o desconforto.
Fontes e leitura complementar
- 1Bula norte-americana da medicação (US Prescribing Information), NDA 217806. U.S. National Library of Medicine, DailyMed, revisão de 08/2026.
Bula oficial dos EUA; usada para segurança, não para afirmar indicações brasileiras.
Voltar ao texto - 2Mozaffarian D et al. Joint Advisory from the American College of Lifestyle Medicine, the American Society for Nutrition, the Obesity Medicine Association, and The Obesity Society. Obesity (Silver Spring), 2025;33(8):1475-1503. DOI: 10.1002/oby.24336. Publicado simultaneamente no American Journal of Clinical Nutrition, 2025. DOI: 10.1016/j.ajcnut.2025.04.023.
Orientação conjunta de sociedades científicas, não ensaio de um protocolo específico.
Voltar ao texto - 3MedlinePlus / National Library of Medicine. Dehydration.
Informação clínica de órgão público.
Voltar ao texto - 4
- 5MedlinePlus / National Library of Medicine. Fatigue.
Informação clínica de órgão público.
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Fontes consultadas em . Diretrizes e bulas mudam; a data de revisão acima diz quando o texto foi conferido pela última vez.

