Emagrecimento e composição corporal

Parei a caneta e a fome voltou: a manutenção do peso precisa começar antes da última dose

Entenda o que estudos de retirada de canetas emagrecedoras mostram e por que manutenção não deveria ser sinônimo de simplesmente parar a medicação.

Nº 09Emagrecimento

“Eu emagreci. Agora preciso conseguir sozinho.”

Essa frase parece uma demonstração de autonomia. Mas eu teria cuidado para não transformá-la em uma obrigação moral: se a pessoa precisar continuar o tratamento, isso não deveria significar que falhou.

A pergunta que eu prefiro é outra: o que precisa continuar existindo para que a melhora seja sustentada? Pode envolver rotina, acompanhamento, alimentação, exercício e, em alguns casos, tratamento medicamentoso prolongado. A duração deve considerar benefício, tolerância e contexto clínico.1

O que aconteceu quando a medicação foi retirada

No SURMOUNT-4, publicado no JAMA, participantes com obesidade ou sobrepeso e complicação relacionada ao peso, sem diabetes, usaram inicialmente a medicação do estudo. Após 36 semanas, 670 foram sorteados para continuar a medicação ou receber placebo por mais 52 semanas.2

A partir desse momento, quem passou para placebo teve aumento médio de 14% do peso, enquanto quem continuou a medicação apresentou redução adicional de 5,5%. Os percentuais têm como referência o peso no momento da randomização, não representam “14% do que havia sido perdido”.2

Isso não significa que todos recuperarão a mesma quantidade, nem que interromper seja impossível em qualquer situação. Mostra que retirar o tratamento pode mudar substancialmente a trajetória. O estudo, patrocinado pela fabricante, não testou todos os possíveis esquemas individuais de manutenção.2

A história não se resume a uma molécula

Na extensão do STEP 1, após a interrupção de outra medicação, diferente da usada no SURMOUNT-4, e do apoio estruturado ao estilo de vida, os participantes recuperaram, em média, cerca de dois terços do peso anteriormente perdido ao longo de um ano. Esse desenho precisa ser lembrado: não foi apenas a retirada de uma injeção mantendo todo o restante idêntico.3

Eu leio esses dados como um convite a planejar, não a assustar. Seria inadequado usá-los para dizer “você nunca poderá parar” sem avaliar a pessoa. Também seria inadequado ignorá-los e prometer que algumas semanas de redução de dose garantem ausência de reganho.

Esses estudos não comprovam um desmame universal capaz de evitar a recuperação do peso.23

O que eu gostaria de combinar antes de mudar o tratamento

Minha proposta é definir como vamos observar fome, saciedade, peso, medidas e funcionamento da rotina. Também deixaria claro quando antecipar o retorno e quais dificuldades precisam ser comunicadas.

Não esperaria um grande reganho para voltar a conversar. Tampouco proporia uma reação impulsiva a qualquer oscilação. O importante é ter um combinado, não viver entre abandono e vigilância excessiva.

Gostaria de discutir a sustentabilidade do plano com honestidade. A pessoa consegue manter as refeições planejadas? O exercício cabe na semana? Houve uma mudança de trabalho ou de renda? Existe um efeito adverso que ela vinha tolerando em silêncio? A estratégia deixou de fazer sentido por algum motivo?

Essas perguntas não substituem a avaliação médica. São parte do que eu gostaria que ela incluísse.

Manutenção também pode ser resultado

Existe uma armadilha na comunicação do emagrecimento: se toda consulta precisa terminar com um número menor, a estabilidade parece fracasso. Eu não adotaria essa régua.

Imagine uma situação hipotética em que a pessoa já atingiu uma condição clinicamente adequada, se alimenta melhor e consegue sustentar seus treinos. A prioridade talvez passe a ser manter, ganhar capacidade e organizar a continuidade. Não obrigatoriamente reduzir mais.

É por isso que eu gosto da ideia de uma fase de construção. Mas ela não deveria vir acompanhada da promessa de que todos deixarão a medicação em uma data previamente vendida. O nome de um programa não pode decidir o que a clínica ainda precisa avaliar.

Não deixe o custo virar uma interrupção silenciosa

Eu prefiro que o orçamento seja discutido desde o início. Um tratamento que só cabe por algumas semanas precisa de um planejamento especialmente transparente para o que acontece depois.

Se o custo, a tolerância ou uma nova circunstância estiverem tornando o uso inviável, avise o profissional antes de improvisar espaçamentos, combinações ou uma substituição por produto de procedência incerta. A mudança deve ser planejada, não escondida.

Para mim, o objetivo da manutenção não é provar que você consegue abrir mão de toda ajuda. É construir a maior autonomia possível sem transformar necessidade de cuidado em vergonha.

Na Aplic&Go, essa conversa faz parte da avaliação e da continuidade do emagrecimento. O último quilo perdido não deveria ser o último dia de acompanhamento.

Fontes e leitura complementar

  1. 1
    NIDDK. Prescription Medications to Treat Overweight & Obesity.

    Informação clínica; aprovações descritas no contexto dos EUA.

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  2. 2
    Aronne LJ et al. SURMOUNT-4. JAMA, 2024;331(1):38-48. DOI: 10.1001/jama.2023.24945.

    Ensaio randomizado de retirada; patrocinado pelo fabricante da medicação.

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  3. 3

Fontes consultadas em . Diretrizes e bulas mudam; a data de revisão acima diz quando o texto foi conferido pela última vez.

Dr. Matheus Prado Severino

MÉDICO · CRM-MG 73113 · Diretor Técnico-Médico da Aplic&Go

Conteúdo educativo. Não substitui avaliação individual e não orienta iniciar, ajustar ou suspender tratamentos por conta própria.

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