Emagrecimento e composição corporal

Como emagrecer com canetas e cuidar da massa muscular pelo caminho

Entenda a diferença entre perder massa magra e perder músculo, o que os estudos mostram e como acompanhar força e alimentação durante o emagrecimento.

Nº 07Emagrecimento

Perder peso e começar a se sentir mais fraco não deveria ser tratado como uma troca inevitável. Também não deveria gerar a conclusão automática de que a medicação “destruiu seus músculos”.

Eu prefiro sair desses dois extremos. Nem ignorar o que o corpo está mostrando, nem transformar uma informação incompleta em medo de tratar a obesidade.

O ponto de partida é uma distinção que muda bastante a conversa: massa magra não é sinônimo de músculo. E quantidade de músculo não é a mesma coisa que força ou capacidade para realizar uma tarefa.

O que o estudo realmente mediu

Em um subestudo do SURMOUNT-1, publicado em 2025, 160 participantes tiveram a composição corporal avaliada por DXA. Na perda de peso observada com a medicação usada no estudo, aproximadamente três quartos corresponderam a gordura e um quarto a massa magra. A proporção foi semelhante à observada com placebo.1

A leitura correta não é “um quarto do peso perdido foi músculo”. A medida de massa magra inclui outros componentes, como água e tecidos não gordurosos. O estudo também não permite diagnosticar perda de força de uma pessoa a partir dessa porcentagem média.1

Essas diferenças parecem detalhe, mas mudam completamente o jeito de comunicar. Um dado útil para organizar acompanhamento não deveria virar um número alarmista na internet.

O problema é acompanhar só a balança

Imagine uma situação hipotética: o peso está caindo, mas a pessoa relata que as cargas do treino diminuíram, as escadas ficaram mais difíceis e as refeições viraram pequenos lanches improvisados. Eu não encerraria a consulta com um parabéns pelos quilos perdidos.

Eu gostaria de revisar a trajetória inteira. O que ela está conseguindo comer? O treino realmente aconteceu? Há dor, tontura ou cansaço? O resultado de composição corporal foi feito em condições comparáveis? O objetivo inicial continua fazendo sentido?

Uma medida isolada merece contexto. Para mim, acompanhar bem é ter coragem de reavaliar a estratégia mesmo quando a balança está produzindo um número aparentemente agradável.

Proteína ajuda. Mas não faz o trabalho sozinha

Uma orientação conjunta de sociedades científicas publicada em 2025 reforça a atenção à adequação nutricional, ao consumo de proteína e ao exercício de resistência durante o tratamento com a medicação. O documento não apresenta suplemento como substituto do treino nem defende que simplesmente comer cada vez menos seja a meta.2

Na prática, eu gostaria que a pessoa saísse com uma estratégia executável: refeições que consegue tolerar, fontes de proteína que gosta de consumir e treino ajustado à sua condição. Não um plano perfeito no papel e impossível na rotina.

Whey pode ser conveniente em algumas situações, mas não deveria representar uma obrigação de compra. Da mesma forma, discutir creatina ou outro suplemento não elimina a necessidade de avaliar a alimentação como um todo. A decisão deve resolver uma necessidade concreta, não preencher uma prateleira.

Força merece ser medida, não apenas presumida

O consenso europeu de sarcopenia dá papel central à baixa força na investigação dessa condição. A confirmação envolve a avaliação da quantidade ou qualidade muscular; o desempenho físico ajuda a caracterizar a gravidade. Isso é diferente de chamar qualquer redução de massa magra no emagrecimento de sarcopenia.3

Eu levaria essa lógica para o acompanhamento sem transformar todo paciente em uma bateria de testes. Podemos definir medidas pertinentes à situação e repeti-las de modo coerente. O importante é não usar o exame de composição corporal como substituto de perguntar o que a pessoa consegue fazer.

O treino também precisa ter espaço real na agenda. Recomendações populacionais incluem fortalecimento muscular, além da atividade aeróbica; a prescrição deve ser adaptada à saúde, à experiência e às limitações de cada um.4

O objetivo não deveria ser ficar cada vez menor

A pergunta que mais me interessa é: o tratamento está aproximando você de um corpo mais capaz de sustentar sua vida?

Isso inclui a roupa, quando esse é um desejo legítimo, mas não termina nela. Inclui caminhar com conforto, manter uma rotina de exercício possível e não organizar o dia inteiro ao redor dos efeitos adversos.

Não prometo que toda a massa magra será preservada nem que existe uma fórmula que garanta isso. Defendo algo mais concreto: definir o que será acompanhado, reconhecer sinais de problema e ajustar o cuidado antes que a perda de capacidade seja normalizada.

É essa a lógica que eu quero associar ao Burn & Build: não acompanhar apenas quanto peso foi perdido, mas o que o corpo continua capaz de fazer. O primeiro passo é uma consulta para entender sua situação, sua alimentação e seus objetivos, sem começar por um protocolo pronto.

Fontes e leitura complementar

  1. 1
  2. 2
  3. 3
  4. 4
    World Health Organization. Physical activity. Fact sheet, 2024.

    Recomendações populacionais; adaptar à condição individual.

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Fontes consultadas em . Diretrizes e bulas mudam; a data de revisão acima diz quando o texto foi conferido pela última vez.

Dr. Matheus Prado Severino

MÉDICO · CRM-MG 73113 · Diretor Técnico-Médico da Aplic&Go

Conteúdo educativo. Não substitui avaliação individual e não orienta iniciar, ajustar ou suspender tratamentos por conta própria.

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