Você abre uma tarefa importante. Uma mensagem chega. Depois outra. Quando percebe, a manhã acabou e o trabalho que exigia raciocínio continua no mesmo lugar.
Essa situação hipotética pode lembrar a sua rotina. Mas ela não permite concluir que você tem TDAH, que precisa de um estimulante ou que existe uma deficiência escondida esperando um suplemento.
Eu entendo o desejo de voltar a render. Só não gosto quando a conversa sobre performance começa escolhendo uma solução antes de descrever o problema.
“Minha cabeça não funciona como antes” precisa de tradução
Quando alguém usa a expressão brain fog, eu gostaria de saber o que mudou concretamente. É difícil manter a atenção? A pessoa esquece compromissos? Demora para encontrar palavras? Sente lentidão? Ou consegue trabalhar, mas termina o dia esgotada?
Essas descrições não são intercambiáveis. No lugar de um rótulo amplo, proponho reconstruir situações: quando começou, em quais ambientes aparece, quanto interfere na vida e o que acontecia naquele período.
Um exemplo hipotético: esquecer onde deixou o celular durante uma semana caótica não conta a mesma história que passar a cometer erros novos em atividades antes familiares. Eu não trataria as duas situações como equivalentes apenas porque ambas foram chamadas de “memória ruim”.
Também perguntaria o que continua funcionando. Essa parte ajuda a tornar a avaliação mais precisa, em vez de deixar a pessoa com a impressão de que perdeu toda a capacidade.
TDAH em adultos não é sinônimo de agenda lotada
O TDAH pode ser reconhecido na vida adulta, mas sua avaliação considera uma história que remonta à infância, persistência dos sintomas, prejuízo e manifestação em mais de um contexto. O NIMH destaca a importância de investigar esse percurso e de distinguir os sintomas de outras condições. Não basta se identificar com um vídeo ou com um teste rápido.1
Essa distinção não serve para diminuir a queixa de quem está sofrendo. Serve para aumentar a chance de tratar o problema certo.
Também não significa que uma pessoa com diagnóstico precise continuar improvisando. Existem tratamentos com evidência, incluindo medicamentos e abordagens psicoterápicas, selecionados conforme a avaliação.1
Eu evitaria os dois extremos: transformar toda distração em TDAH e tratar um transtorno real como falta de esforço.
Antes de acrescentar algo, vale entender o que está ocupando espaço
Sono, sintomas de ansiedade ou depressão, condições clínicas e medicamentos precisam entrar na história. Fadiga tem múltiplas causas possíveis, e o contexto orienta o que merece investigação.2
Minha proposta não é pedir que o paciente resolva sozinho a vida inteira antes de receber ajuda. É não isolar o cérebro da rotina em que ele precisa funcionar.
Eu gostaria de saber, por exemplo, se a piora começou junto de uma mudança de horário, de um tratamento ou de uma fase de sofrimento. Estabelecer a sequência não prova causalidade, mas ajuda a formular perguntas melhores.
O mesmo vale para cobranças profissionais. Uma meta impossível pode exigir reorganização do trabalho; um transtorno pode exigir tratamento; às vezes as duas necessidades coexistem. Não considero bom cuidado escolher uma delas por conveniência.
O que seria uma melhora que faz diferença?
Para mim, a meta não deveria ser “ficar mais produtivo” sem definição. Prefiro combinar indicadores que façam sentido para a pessoa: concluir uma tarefa prioritária, acompanhar uma reunião, manter compromissos, sustentar uma conversa sem se perder.
Não apresento isso como um teste diagnóstico. É uma maneira de tornar o objetivo do acompanhamento verificável no cotidiano.
Se a pessoa passou a trabalhar mais horas, mas está dormindo pior, mais irritada e menos presente em casa, eu não chamaria o resultado automaticamente de boa performance. A avaliação precisa considerar o conjunto que foi combinado, e não apenas uma entrega profissional.
Por que eu não começaria com uma “pilha de nootrópicos”
Antes de usar qualquer substância com a promessa de melhorar foco, eu cobraria respostas: qual problema ela pretende tratar? Há evidência para uma pessoa com esse perfil? Quais riscos e interações precisam ser considerados? Como saberemos se vale continuar?
Essas perguntas não são resistência à inovação. São critérios mínimos para não confundir experimentar muitas coisas com cuidar bem.
Performance, para mim, não é conseguir ignorar o corpo por mais horas. É recuperar capacidade com clareza sobre o que está sendo tratado e como acompanhar a resposta. No Performa+, esse é o sentido que eu defendo para a avaliação: entender primeiro, decidir depois e conferir se o cuidado está melhorando a vida, e não apenas preenchendo a agenda.
Fontes e leitura complementar
- 1NIMH. ADHD in Adults: 4 Things to Know, 2024.
Informação clínica de órgão público; avaliação do adulto e história de sintomas.
Voltar ao texto - 2MedlinePlus / National Library of Medicine. Fatigue.
Informação clínica de órgão público.
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Fontes consultadas em . Diretrizes e bulas mudam; a data de revisão acima diz quando o texto foi conferido pela última vez.

